Não mais os mesmos…

Já não são mais os mesmos móveis que habitam este cômodo

Algo novo surgiu em meio à antiga mobília, à antiga parede…
Àquelas portas que separam seus mundos
Até suas marcas que mostram o tempo tomaram um novo semblante
Menos triste…
Mais presente…

(Alessandra Capriles)

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Sobre carmas e ciclos…

Texto escrito há 2 anos, resgatado pelo Cosmos…
 
***
 
Nunca, no auge destes 30 anos de existência, beirando os 3.1, imaginei-me estar a viver situações atuais, que tornaram-se tão comuns em minha vida, como se fossem algo completamente natural…
 
Como se nem Pedro Almodóvar tivesse imaginado tais cenas cotidianas, cenários, personagens, diálogos, e nem tantos tons rubros assim…
 
E olha que, quem me conhece, sabe o quanto já vivi de inusitado nesta minha breve vida (ok, não precisam começar a citar… rs)…
 
Realmente, tenho o dom para experiências “inovadoras”… Será o meu carma? Será a minha alma poética de um verdadeiro poeta? Será o meu inconsciente mais perverso, cético, ou, quiçá, ingênuo? Será a minha vibração energética que anda um tanto despolarizada?
 
Coleciono histórias nostálgicas as quais nunca contarei aos netos… mas… quem sabe um dia escreva um livro? Uma autobiografia autorizada postumamente (rsrsrs)… Só se for… Só se for… Esta guardada sob os cuidados de mãos ainda a serem decididas… rs
 
Deus, deuses, cosmos, deem-me uma direção e discernimento, por favor!!!
 
Tá difícil, tá puxado…
 
(Alessandra Capriles)

Dos escravos aos Cravos…

As marcas da ditadura são as que se cravam na alma
De um cálice a um calar-se, um passo de silêncio
De um medo de toda e muita gente
Sob a mira das vozes que nos amargam
Com seu torpor intransigente sobre a liberdade
Dos que clamam por sua própria voz
Seu próprio brado e vontade
De somente um canto de um hino de glória
Algum amor e um olhar justo
Alguma misericórdia digna de alívio
Pela qual junta a muitos luto
Sem que o cansaço vença
E na peleja levantada aos oprimidos
Os abatidos se levantem e cantem
Porque na voz está a força
E na luta se esconde a vitória
Que se traga em liberdade …
 
(Alessandra Capriles)
 
Uma modesta homenagem ao 25 de Abril…

Sinestésicos versos…

Vejo palavras em imagens
Imagens em palavras
Faço tudo uma coisa só
Amo imagens e seus sentidos
Palavras e sentimentos
Mares tomam melodiosos versos
Céus choram stratus nimbus
Sóis alvorecem raios
Árvores cantam canários
Palavras enamoram-se de borboletas
Imagens de seus sonetos
Abstraio o concreto…
Suas formas tomam versos
Imagens e palavras não são objetos táteis
Sentir… um outro indescritível sentido
Toda criação é artista
E não arte para quem vê
Ver é enganar os sentidos
Palavras se tocam com sutileza no olhar
Imagens se movem com as pontas dos dedos
Afagadas nas palmas das mãos…
Palavras e imagens se ouvem nos atos
Suas formas se despem com toda pureza
E cada novo ato das formas
Terá o prazer da criação
Imagens e formas são a própria criatura
Criador…
Vejo palavras ao sentir imagens
Imagens ao sentir palavras
Toda manifestação do âmago
É uma sinestesia só…
 
(Alessandra Capriles)

Sobre os ofícios e a vida adulta…

Sempre tive a minha vida dividida entre algumas paixões, e duas delas são a escrita e o atendimento ao público.
 
Há 18 anos, descobri que a escrita fluía em minhas veias, e, com o tempo, conforme as necessidades de cumprir com as obrigações da vida adulta, trabalhei em diversas áreas: estagiei em produção cultural, revisão de textos, algumas escolas, e também trabalhei no comércio, entre muitas outras funções mais que exerci… mas, isso aqui não é um curriculum vitae.
 
Dessas, sempre tive o enorme apreço pelas trocas, pelo aprendizado, por ensinar o pouco que eu sabia, e sempre busquei fazer o meu melhor, seja onde eu estivesse.
 
Nessa longa jornada que vivi, e vivo, no comércio, sempre produzi bastantes conteúdos escritos, pois toda e cada experiência sempre era uma inspiração, e o empirismo é uma característica forte de meus textos e poemas, sempre com algum cunho filosófico e espiritual, aliados a algum lirismo.
 
Nos últimos tempos, após uma longa pausa para dedicação à vida acadêmica, voltei a trabalhar no comércio, e também a buscar novas experiências. Comecei a observar ainda mais a vida dos trabalhadores, as suas funções, as suas vidas, rotinas, saber o que pensam, e, como uma boa geminiana, a comunicação me é algo deveras inerente. Há até quem me julgue por conversar com toda e qualquer pessoa, achando que sou comunicativa demais, enquanto também já fui julgada, quando, por opção, também escolhi me resguardar, e me limitar a somente ser expectadora.
 
É muito bom poder conversar e conhecer as pessoas que passam pelas nossas vidas, e buscar fazer disso algo menos corriqueiro, de modo que o envolvimento seja menos superficial, pois tal superficialidade, infelizmente, faz parte da vida de maior parte da população que vive sempre as suas vidas agitadas, com o tempo cronometrando a rotina, e controlando até mesmo as relações.
 
Trabalhando no comércio, passaram muitas pessoas pela minha vida que reclamavam do trabalho, que achavam que a rotina de um vendedor é massante, que ficar em pé durante 6 horas diárias, durante 6 dias na semana, com direito a somente um dia de folga é escravidão, mas será que tais pessoas já tiveram a oportunidade, ou, ao menos, curiosidade de conhecer outras funções na mesma área, ou até mesmo outras profissões?
 
Há pessoas que trabalham durante 12 horas diárias, e também só têm uma folga na semana. Essas talvez sejam mais afortunadas financeiramente, mas também perdem alguma qualidade de vida, porém as mesmas também têm a oportunidade de vivenciar outras experiências, e fugir da rotina, e confesso que me encantei por uma profissão em específico: a de garçom.
 
Creio que diversos amigos têm contato diário com muitos deles, afinal, quem não gosta de, ao final de um longo dia de trabalho, relaxar tomando uma cerveja ou um drink em um bar? Pois… mas, quantos deles se atentam às suas funções, que vão além de servir mesas e lidar com possíveis bêbados que passam da conta, ou até mesmo tentam sair sem pagar a conta?
 
Sempre gostei de conversar com garçons, afinal é quase como se sentar à mesa de um anfitrião, e ser servida por ele. Há de se apresentar, dialogar, ser gentil, com a única diferença que, ao final, pagamos pelo serviço. Mas, mero detalhe, eles são gente como a gente, e estão ali para nos servir, o que torna um ofício lindamente admirável. Por isso, é preciso que estejamos atentos.
 
Penso que todo jovem que se aventura a entrar no mundo adulto do trabalho, devesse buscar distintas experiências, como eu sempre busquei, às vezes, por opção minha, outras, por imposição da vida, e foi assim que cheguei ao comércio, às vendas, ao atendimento, e conquistei outros cargos e funções também, devido ao meu comprometimento de sempre buscar fazer bem, seja o que fosse, e tendo sempre como foco principal o cliente, e, consequentemente, os resultados.
 
Há trabalhadores que enfrentam essa árdua rotina de mais de 12 horas de labuta, veem o dia amanhecer varrendo calçadas, lavando chãos, carregando mesas, cadeiras, engradados pesados, e depois ainda se aventuram em conduções, longas ladeiras, escadarias e distâncias, e o fazem sem se queixar, sem descontar as suas mazelas nos clientes, o fazem sempre com um sorriso no rosto, o que atrai ainda mais clientes, além de carinho e admiração.
 
É, meus jovens, vocês que acham as suas vidas difíceis, muitos não sabem o que é dificuldade, e o que é, de fato, enfrentá-las. Viver e cumprir uma função é muito mais do que ligar o botão automático e correr de olho no relógio, e muito mais do que bater o cartão à espera do horário de almoço, ou de saída. É muito mais do que sentar em um bar, após o trabalho, beber, e fazer do garçom seu serviçal, ou analista.
 
São tantas histórias de vida, tantos ensinamentos, aprendizados e experiências ali vividas, além de amores e sonhos… e todos os sonhos devem ser respeitados…
 
O trabalho é uma constância, e ele se estende ao social, quando você enxerga o outro como alguém que, mais do que te servir e dar atenção, também espera, em algum momento, por um olhar um pouco mais atento, saiba, meu jovem, que enfim, a sua missão está sendo cumprida.
 
Bem-vindo à vida adulta!
 
(Alessandra Capriles)

Puro malte…

A carne flameja
Sangra n’alma a palavra oculta
A culpa da insana entrega
Desmedida ao tempo, à conta
Que toma o percurso nulo
À beira do meio e do fio
O fim da estrada cravada
No intento dormido
À calçada, às mesas, aos copos
Aos lábios tolos que se deleitam
E se beijam aos olhos alheios
Devaneios julgados pelo anseio
Que amanhece à porta, à ladeira
Degraus de um cume à vista turva
Que escoa nas ondas de um mar
Que debruça ao parapeito e encobre a areia
E só…
Sós às palavras ditas, mal ditas
E às não proferidas…
Benditas profecias que se calam
No tato adiado a tantos olhos
Sempre tantos, e nunca sós
Nós atados ao temor de futuros
E passados ausentes
Que nos distam de um novo tempo presente
Servido além da carta, do malte
Da saliva seca de amargos receios
Que desatinam nossos desejos
Que morrem nos degraus, na calçada, na madrugada
Em meio a tantos outros transeuntes sedentos
Ébrios poucos que se calam diante da verdade
Que arde e amansa em prismas esmerados alvorecidos
Em íris de esmeraldas que reluzem as almas unas
E sós…
Em busca de um descompasso, ou tantos
Salvadores que embarcam em suas naus
Aprisionados ao eterno relento que aporta e desaporta
Abortados alentos retomados por novas rotas
Que embargam a âncora de outros beijos que partem
Como em uma paródia sem quando, como, nem onde…
 
… quizás…
 
(Alessandra Capriles)